quinta-feira, 12 de maio de 2016

Post 1 de 2: GEL / Continental – gravadora nacional, mas com força de major


Como visto no livro "O Lado B", a Casa Edison foi a companhia pioneira na produção de discos no Brasil - em fins do século XIX. Localizada no centro do Rio de Janeiro, a empresa fora idealizada e conduzida pelo tcheco Federico Figner, tendo sido sucedida pela Odeon em 1929. Naquele mesmo ano, em São Paulo, o industrial Alberto Jackson Byington Junior dava início a mais uma empreitada da Byington & Co. A companhia, já firmada no Brasil como representante de máquinas de escrever e geladeiras, passaria a investir também em música gravada.

Por sugestão do produtor norte-americano de cinema Wallace Downey, Alberto Byington assumiu a representação da Columbia Records no Brasil. Assim foi durante 14 anos, até que a Columbia norte-americana resolveu se instalar por aqui de forma autônoma. O conglomerado Byington possuía notável know-how acerca do mercado fonográfico, assim como estrutura e maquinário, por isso tinha totais condições de prosseguir com suas atividades fonográficas, mesmo desvencilhada da marca Columbia.

Disco de 78 RPM de 1941. Selo Columbia, fabricação de Byington & Co. 
Disco de 78 RPM de 1945. Selo Continental, fabricação de Byington & Co.
Com João de Barro (Braguinha) como diretor artístico, o braço fonográfico da Byington & Co. passa a se chamar Continental Discos a partir de 1943, e por muitos anos competiu em pé de igualdade com as internacionais RCA, Odeon e Columbia Broadcasting System (CBS), com cast e lançamentos expressivos. A companhia de Byington teria ainda tantos outros selos, tais como Chantecler, Caboclo, Musicolor e Phonodisc – sob a razão social Gravações Elétricas LTDA. – ou GEL.

O pesquisador Ruy Castro narra em seu livro "Chega de Saudade" [Companhia das Letras, 1990] o curioso e eficiente sistema de distribuição da Continental em meados das décadas de 50 e 60, que levava seus discos aos lugares mais inóspitos do Brasil, se valendo até de transporte animal - o conhecido "lombo de burro".

A GEL se notabilizou a partir da década de 60 por expressivos lançamentos de álbuns de música sertaneja em grande escala, com destaque para nomes como Cascatinha & Inhana, Duo Glacial, Irmãs Galvão, Tonico & Tinoco, Milionário & José Rico e tantos outros. Como visto no livro “O Lado B”, a Columbia, representada pela Byington, havia sido a primeira companhia a explorar esse filão, através do pesquisador e empreendedor Cornélio Pires. A também nacional Copacabana investiu fortemente nesse segmento, pouco valorizado pelas majors, assim como a Chantecler, adquirida pela GEL em 1972 – tornando mais forte seu conglomerado. Somente na virada dos anos 80 para os 90 as gravadoras internacionais se renderiam em peso ao estilo sertanejo, tendo como marco a saída de Chitãozinho & Xororó da Copacabana rumo à Philips, um dos selos mais nobres da Polygram – atual Universal Music.

GEL / Continental: do surgimento ao fim, profusão de identidades visuais.

Entre as décadas de 60 e 80, a fábrica da GEL não somente dava conta de suas próprias demandas, como também fabricava discos de várias outras companhias, tais como CBS e Warner Music (WEA). A Warner, por sinal, se estabeleceu no Brasil na segunda metade da década de 70 dedicando-se muito mais aos setores de A&R (artistas e repertório), promoção e vendas do que à fabricação – antecipando uma tendência que viria dominar a indústria anos depois. A GEL possuía ainda uma gráfica própria para produzir as capas e encartes de seus discos. No fim da década de 80, a companhia terceirizou suas prensagens com a americana Wheaton – no Brasil estabelecida em São Bernardo do Campo.

O conglomerado GEL foi incorporado ao grupo Warner em 1993, sem aparentar crise, já que a gravadora vinha emplacando diversos êxitos até então, sobretudo no segmento sertanejo, que tomou conta do Brasil nesse período. Destaque para Roberta Miranda e Leandro & Leonardo, que gravaram diversos discos pela GEL e Warner.

Após a fusão e com a crescente demanda do mercado por CDs, a produção de vinil – e também de cassetes, no mesmo parque fabril – da GEL foi desativada. Os últimos LPs e cassetes lançados por selos GEL / Warner, na década de 90, foram fabricados por diversas outras companhias, ao passo que toda a produção de CDs no Brasil saía basicamente de três fábricas: Microservice, Videolar e VAT. Sony Music e BMG teriam fábricas próprias de compact discs na segunda metade dos anos 90.

A GEL / Continental provavelmente foi a gravadora nacional mais longeva da história de nossa fonografia, e talvez aquela que melhor tenha retratado toda a diversidade musical brasileira entre as décadas de 40 e 90.

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quinta-feira, 28 de abril de 2016

Toca-discos: você sabe diferenciar um aparelho bom de um ruim?


Apesar do notável crescimento do mercado de LPs, poucas são as opções de toca-discos de boa qualidade disponíveis no Brasil. Diversos modelos de aparelhos conjugados com design atraente podem ser encontrados em grandes magazines e lojas de eletrônicos. Impressionam pela versatilidade de formatos que teoricamente conseguem reproduzir, desde discos de 78 RPM até CDs e arquivos mp3. Entretanto, todos esses aparelhos têm algo em comum: os preços absurdamente altos e a baixíssima qualidade de seus componentes, sobretudo aqueles que integram a unidade reprodutora de discos analógicos.

Através das explanações básicas, expostas a seguir, o ouvinte que se inicia nesse universo poderá conhecer os componentes essenciais de um toca-discos e ter maior discernimento ao escolher seu aparelho.

Prato: os bons são bem pesados, de modo a estabilizar a rotação, geralmente feitos em alumínio ou acrílico denso. Os ruins são feitos de plástico fino e estão sujeitos às instabilidades e oscilações do motor.

Motor: os toca-discos de má qualidade costumam ser equipados com motores muito frágeis e instáveis. Podem rotacionar o prato em velocidade superior à adequada, ou, por vezes, inferior. Não há "pitch" para ajuste fino de rotação e muito menos mecanismos de manutenção de velocidade - tal como quartzo, servo ou estrobo. A audição, portanto, muitas vezes resulta distorcida. Motores frágeis também não costumam resistir por muito tempo em rotação, tendo curta vida útil. Muitos modelos de toca-discos - tanto bons quanto ruins - são movidos por correia, eficaz método de tração. Aparelhos mais antigos funcionam com polias, enquanto que os profissionais, usados por DJs, possuem motor de tração direta.

Agulha: as melhores possuem ponta de diamante, um dos materiais mais resistentes da natureza. Agulhas que equipam toca-discos ruins geralmente são de safira, material também nobre, mas pouco duradouro. Convém destacar que a velocidade de 78 RPM exige agulha diferente daquela usada para 33 e 45 RPM. Quanto aos formatos, há agulhas de ponta cônica, elíptica ou birradial, mas, de modo geral, as cônicas atendem bem às necessidades da maior parte dos ouvintes.

Braço: são vários os formatos possíveis - retos, curvos, em formato de "s". Cada um tem suas peculiaridades. Mas para todos os casos, o braço deve estar perfeitamente calibrado, formando angulações ideais com os sulcos dos discos - o que pode ser verificado através de gabaritos. Os toca-discos de má qualidade simplesmente não possuem qualquer engenharia fina e lógica em seus braços, resultando em leitura falha e deficiente dos sulcos.

Antiskating: mecanismo que compensa a força centrípeta do braço em relação ao eixo do disco. É fundamental para equilibrar a agulha corretamente dentro do sulco sonoro, permitindo uma leitura correta, sem pulos. Em toca-discos ruins esse sistema é inexistente. Em aparelhos intermediários, a compensação antiskating já é aplicada de fábrica. Os melhores toca-discos são dotados de um botão próximo ao braço que permite esse ajuste de forma precisa.

Cápsula: peça que é acoplada ao shell - ponta do braço do toca-discos - onde é afixada a agulha. É responsável por converter as vibrações dos sulcos dos discos em impulsos elétricos. Para baratear o processo de produção dos toca-discos, fabricantes que não prezam pela qualidade dão preferência às cápsulas piezelétricas de cerâmica, no lugar das magnéticas - de qualidade superior. As cápsulas de cerâmica possuem tensão de saída alta, dispensando pré-amplificação, o que configura economia. A resposta de frequência dessas cápsulas, no entanto, é muito restrita, além de exigir uma força de trilhagem - peso final da agulha - muito alta, o que representa um desgaste maior dos sulcos dos discos.

Amplificação: como visto no item anterior, os toca-discos dotados de cápsula de cerâmica costumam dispensar pré-amplificação, por isso são mais baratos. Possuem tensão de saída alta, mas de baixa qualidade. Aparelhos com cápsula magnética têm saída baixa, mas muito mais precisa. Exigem amplificador / receiver com entrada "phono" ou um pré-amplificador para  mediar a conexão com uma entrada "aux".

Caixas de som: aparelhos conjugados de baixa qualidade dificilmente possuem caixas de som compostas por alto-falantes de três diâmetros: para graves, médios e agudos. Suas caixas costumam ser dotadas de uma única via, reproduzindo um som pobre em dinâmica. Para quem busca áudio analógico de qualidade, o ideal é montar um sistema de som com toca-discos, receiver e caixas independentes com três vias.

Os itens aqui citados são aqueles que se relacionam de forma mais direta com a reprodução de um disco analógico, mas convém destacar que os aparelhos de baixa qualidade costumam ter capacitores, potenciômetros, placas, fontes, cabos e soldas igualmente ruins. Geralmente, são subprodutos de fábricas chinesas, que ganham valor agregado através do belo design de suas carcaças. O dito popular "as aparências enganam" cabe bem para essa situação.

Dos bons toca-discos disponíveis hoje no mercado, destacam-se os das marcas Stanton, Denon, Marantz e Audio-Technica. Seus preços costumam fazer jus à qualidade que possuem, mas, para quem busca uma boa relação custo-benefício, é possível encontrar bons toca-discos seminovos das décadas de 70 e 80 em lojas e sites especializados. Gradiente, Polyvox, Sony e Philips são algumas marcas que produziram aparelhos acessíveis e de ótima qualidade nesse período. Modelos mais elaborados e caros foram lançados na mesma época por Technics, Dual, Thorens, Marantz, Yamaha, JVC e outras companhias.

Através dessas breves explanações, os iniciantes no universo do som analógico certamente estarão mais preparados para escolher seus equipamentos e desfrutar melhor dessa experiência.





terça-feira, 19 de janeiro de 2016

Vinil Brasil faz frente à Polysom

A Polysom, única fábrica de discos de vinil em atividade no Brasil, está prestes a ganhar uma concorrente a altura. O produtor e DJ Michel Nath, atento aos números positivos nas vendas de LPs em todo o mundo, prepara a inauguração da fábrica Vinil Brasil, no bairro da Barra Funda, em São Paulo. Com maquinário da extinta gravadora Continental, Nath pretende prensar até 140 mil discos por mês - entre LPs e compactos. É mais que o triplo da capacidade atual da Polysom, sediada em Belford Roxo, no Rio de Janeiro. Técnicos do ramo foram resgatados para integrar a equipe da nova companhia, que deve entrar em atividade ainda no primeiro semestre de 2016.

O DJ Michel Nath. Foto: Folha.

Entusiastas do LP celebram a criação da Vinil Brasil, que pode vir a figurar como alternativa às caras prensagens estrangeiras e mesmo promover uma concorrência saudável com a nacional Polysom. O consumidor final é quem sairá ganhando.

Resta saber se as grandes companhias do ramo eletroeletrônico acompanharão essa tendência de revalorização do vinil. Atualmente, os consumidores desse nicho têm, necessariamente, de recorrer a toca-discos importados ou mesmo de segunda mão. Cápsulas e agulhas, igualmente raras de se encontrar, são vendidas a peso de ouro em poucas lojas especializadas. O mercado dá claros sinais de que a ressureição do disco de vinil não configura mero modismo. A tendência, inegavelmente, tem ganhado cada vez mais força e adeptos ao longo dos últimos anos.

terça-feira, 11 de junho de 2013

Músicos elegem CD como melhor formato?


Matéria da Folha de S. Paulo intitulada "Músicos elegem CD como melhor formato", publicada no caderno Ilustrada em 09/06/13, procurou elucidar a visão de três músicos sobre a qualidade dos suportes CD, LP e MP3. O teste comparativo realizado pela publicação, muito mais empírico do que científico, deixou de considerar aspectos técnicos importantes e decisivos.

Íntegra da matéria da FSP aqui.

Supõe-se que a gravação utilizada como referência tenha sido oriunda de uma mesma masterização, considerando que o disco "Transa", de Caetano Veloso, teve recente reedição em CD e LP (Philips/Universal Music, 1972/2012). Assim, destaco peculiaridades na avaliação da audição em cada suporte, a saber:

CD ..............................................................................................

Diferenças sensíveis de qualidade podem ser percebidas entre diversas marcas e modelos de CD Players. A unidade ótica ou canhão de laser está para o CD Player como o conjunto de agulha e cápsula está para o toca-discos analógico. Destaque-se ainda as variações de tecnologia dos processadores de áudio utilizados.


MP3 ..............................................................................................

Sua qualidade varia de acordo com o bitrate utilizado na compressão. Um arquivo com taxa de bits de 320 kbps, por exemplo, soa tanto melhor do que em 128 kbps. Destaque-se ainda a qualidade do player utilizado e os níveis pré-definidos de equalização do dispositivo, fatores que influenciam diretamente no equilíbrio de graves, médios e agudos.


LP ..............................................................................................

A reedição em vinil do álbum "Transa" lançou mão da tecnologia DMM (Direct Metal Mastering), em que o corte da matriz se dá diretamente no metal, eliminando a etapa da sulcagem em acetato, o que resulta num registro de altíssima qualidade. Percebe-se, na capa do caderno Ilustrada, que o toca-discos utilizado no teste da Folha é um Technics com tração direta (direct drive). Trata-se de um aparelho "hi-fi", ideal para DJs que trabalham com “scratches” e "turntablism", por ser desprovido de correia. Sabe-se, entretanto, que os toca-discos "hi-end", “state of art”, lançam mão de correias de borracha (sistema belt drive), a fim de minimizar eventuais vibrações oriundas do motor de tração. O prato de um toca-discos “hi-end” costuma ser tanto mais pesado do que o de um “hi-fi”, para que se mantenha a fluidez da rotação.

Atentemo-nos, especialmente, ao conjunto de cápsula fonocaptora e agulha utilizado. Percebe-se, na imagem que ilustra a edição, que o toca-discos utilizado está provido de uma cápsula de “scratch”, o que certamente indica que nela está acoplada uma agulha cônica. Para audição apreciativa, as agulhas elípticas são as mais adequadas, por terem uma maior área de contato com o microssulco do LP, o que resulta em maior fidelidade de reprodução, sobretudo nos graves. As agulhas elípticas, ou bi-radiais, não são usadas por DJs, em razão do maior atrito – que danificaria os sulcos numa manobra.

É absurda a qualidade de som oriundo de uma agulha elíptica em relação a uma cônica, sobretudo na reprodução de um LP dotado de corte DMM. Igualmente assombrosa é a diferença de som percebida entre uma cápsula “hi-fi” e uma cápsula “hi-end”, inclusive de preços. A primeira está na casa das centenas de Reais; a segunda adentra a casa dos milhares.

As diferenças entre um sistema de toca-discos “hi-end” e um “hi-fi” são perceptíveis a olho nu:


Foto: ultrahighendreview.com

Foto: visionliving.com.au



O referido LP de Caetano apenas renderia máxima qualidade sonora com um equipamento de ponta, portanto.

Para todos os três suportes, considere-se ainda o sistema de pré-amplificação e amplificação – se valvulados ou digitais – e alto-falantes.

Em suma, nenhum suporte fonográfico é magnânimo. Numa comparação entre vários deles, há que se considerar inúmeros fatores técnicos, que influenciam direta e indiretamente sobre o som que se ouve.

Nota pessoal: o que se registra num suporte digital são sequências de códigos binários. O que é registrado num LP é o desenho da vibração do som – a mesma que podemos sentir ao sobrepor a mão sobre o pescoço enquanto falamos. A naturalidade com que soa o áudio oriundo de um bom sistema analógico me toca sensivelmente, assim como a uma imensa e crescente legião de audiófilos.

quarta-feira, 6 de março de 2013

O canto em Cy, por Aquiles Reis

As meninas do Cy (Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, coleção Aplauso), é o livro no qual Inahiá Castro revela a biografia do Quarteto em Cy. Emocionado, agradeço a ela, que, plena de emoção e competência, trouxe à luz o percurso cinquentão das Cys.

Ao agradecê-la, estendo minha homenagem a todos os memorialistas que se dedicam a pesquisas musicais para fazerem dos que somos fãs personagens de um enredo que quase sempre parece inspirado em um romance. A eles meu aplauso.

Logo no início do livro está o perfil dos pais das quatro meninas e o legado que ensinaram e deixaram para elas. E como assim se formou o caráter que as acompanhou à juventude e à maioridade. A saída do interior da Bahia, a chegada a Salvador. A ida para o Rio de Janeiro. O encontro fundamental com Vinícius de Morais. Sucesso. Viagens. As desavenças, os recomeços... a vida.

Está tudo lá nas 246 páginas de um livro bem encadernado e repleto de belas e marcantes fotos de arquivo. (Comentada por Igor Garcia, há também a discografia dos 38 trabalhos do Quarteto, bem como dos discos solos gravados por cada uma delas.)

Inahiá me faz viajar no tempo, quando, dentre outras situações, relembra as quatro voando para Los Angeles, Cyva casada com o Aloísio de Oliveira. Haja coragem! Fala das separações, das trocas de integrantes, tantas. Lembra quando Cynara e Cybele, sob vaias, cantaram “Sabiá” no Maracanãzinho, tendo ao lado Tom e Chico. Recorda quando Cynara gravou “Pronta Pra Consumo”, seu LP solo. Revê as dezenas de discos lançados, muitos com formações diferentes do Quarteto original e do atual.

Lembra também dos recomeços, tantos. Dos muitos shows, inclusive de um que muito me emocionou, “Resistindo”, direção de Benjamim Santos, encenado no Teatro Fonte da Saudade, no Rio de Janeiro. Lembra ainda de outro momento importante, dentre tantos outros, em que o Teatro Carlos Gomes foi todo reformado apenas para o show “Cobra de Vidro”.

Partindo de depoimentos, principalmente de Cyva e Cynara, mas também de inúmeras outras pessoas, Inahiá desvenda uma história de alegrias e tristezas, sucessos e ostracismo. Mas o jeito como os depoimentos de terceiros foram inseridos é o único senão do livro: colocados em meio ao desenrolar da trama, eles findam por quase quebrar a sequência dramática da narrativa, atenuando-a. E olha que o que não falta na vida do Quarteto em Cy são situações que beiram o drama. Aí reside sua beleza.

Inahiá descreve também a dificuldade que é manter unido um conjunto de pessoas, com os egos suplantando a união e propiciando a discórdia, e ensina: abrir mão de opiniões em favor de continuar trabalhando junto é um dos obstáculos que todo grupo enfrenta enquanto busca a longevidade.

Finda a leitura, eu me pergunto: depois das lembranças, o que resta? Restam os dias de quietude saudosa e da desconsolação? Ora bolas, tudo isso restará. Mas principalmente restará o canto, pois, para quem sempre viveu dele, ele será eterno.

Aquiles Rique Reis, músico e vocalista do MPB4

quinta-feira, 22 de março de 2012

“Não, o autotune não basta pra fazer o canto andar”

Interface do Auto-Tune, software da Antares Audio Technologies.
Se o palco é o templo do músico, o estúdio deve ser, no mínimo, seu oratório. A apresentação realizada no palco é o momento de o artista estar em contato com seu público, dialogar, trocar energia viva, bilateral. Já o ambiente laboratorial de um estúdio deve fornecer condições de perpetuar a técnica deste músico, muito mais do que sua emoção. Visa-se, muitas vezes, o registro de uma perfeição que inexiste viva, e que é buscada de maneira incessante quanto mais a tecnologia evolui. Compreensível tal busca se considerarmos que o artista quererá ter a certeza de que sua obra, ainda que intangível, estará bem pintada, nítida, bem emoldurada e bem exposta – numa comparação com as artes visuais tangíveis. É através da reprodução, e não através do original temporal, que grande parte do público terá acesso à obra de um artista.

O show remonta a primária intenção da arte, de cultuar o aqui e o agora, o temporal. Quando registrado em suportes audiovisuais perde valor, como pregam os mais ortodoxos. E tal perda não ocorre somente pelo fim da temporalidade, mas principalmente pelos procedimentos de pasteurização pelos quais passa o material bruto gravado. Aumentam-se frequências, incluem-se outras, filtram-se ruídos acústicos e naturais produzidos espontaneamente pelo corpo: silvos, respirações; elevam-se os sons de aplausos para tornar o registro mais “quente”. A preocupação agora é outra: tornar infalível o falível; tornar o vivo ainda mais vivo através de maiores cargas de tintas – novamente cabendo a comparação com as artes visuais.

Em DVD anexo ao disco “Carioca”, lançado por Chico Buarque em 2006 pela Biscoito Fino, nota-se o músico debatendo com seu técnico de som sobre qual take de gravação soava melhor, estendendo longa discussão sobre a forma com que cada verso fora entoado nas diferentes sessões. Um trabalho de recorte e colagem minucioso resultou na gravação final que se ouve no disco. No caso de Chico Buarque, que é por essência muito mais um compositor do que um cantor, é bastante aceitável que sua voz seja submetida a este tratamento em estúdio. Tais artimanhas são utilizadas por muitos artistas, que o fazem por mero perfeccionismo, por comodismo ou mesmo pela ausência de atributos técnicos. Há ainda os que pregam a plena naturalidade do registro, como a cantora Joyce, que afirma gravar seus discos de forma espontânea e linear, sem intervenções tecnológicas.

O polêmico Auto-Tune, ferramenta para correção de afinação vocal, já foi tema de reflexão de Caetano Veloso em sua “Autotune Autoerótico”, registrada por Gal Costa em seu recente disco “Recanto” (Universal Music):

"Não, o autotune não basta pra fazer o canto andar
Pelos caminhos que levam à grande beleza"


Como destaca Caetano, as ferramentas tecnológicas para aperfeiçoar o canto não são, portanto, milagrosas e autossuficientes. Os artistas, bem como seus produtores, técnicos e engenheiros de som devem usar de muito bom senso ao lançar mão delas. A ferramenta não deve se sobressair ao operário e tampouco à obra.

terça-feira, 20 de dezembro de 2011

Som Sagrado

Por muito tempo à parte do universo popular, a música religiosa sai de seu nicho a partir da década de 90 para hoje ganhar grande espaço na mídia e a atenção das grandes companhias fonográficas.
Padre Fábio de Melo - Foto: divulgação.
No ranking dos CDs mais vendidos de 2009 – divulgado pela ABPD em 2010 – figura em primeiro lugar o álbum “Iluminar”, do Padre Fábio de Melo. O sacerdote reaparece ainda na sexta colocação com o disco “Eu e o Tempo - Ao Vivo”, na oitava com “Vida” e na décima quarta com “Padre Fábio de Melo - Triplo”. Na décima terceira posição figura “Deus do Impossível”, de Aline Barros.

Na relação de DVDs campeões de vendas, Fábio de Melo ocupa a segunda posição com “Eu e o Tempo - Ao Vivo”. Na quarta posição, “Paz Sim, Violência Não – Volume 2” do Padre Marcelo Rossi, que também aparece na nona colocação do ranking com o primeiro volume da mesma série. Na quinta posição, “Creio em Deus do Impossível”, do Padre Reginaldo Manzotti.

Destaque-se que todos os lançamentos em CD e DVD ora descritos possuem produção e/ou distribuição da Som Livre, excetuando-se Padre Marcelo Rossi, da Sony Music. Costumeiramente no ranking da ABPD com trilhas de novelas e demais produções dramatúrgicas, a gravadora das Organizações Globo perdeu seu foco no secular, hoje tendo cast predominantemente religioso, ao qual se agregam ainda Davi Sacer, Diante do Trono, Ludmila Ferber e outros mais. Neste 2011 a Rede Globo preparou o especial “Promessas”, exibido em 18 de dezembro, para reverenciar o gênero, tendo liderado a audiência do horário com média nacional de 13 pontos no IBOPE (Fonte: Gospel Prime).

Não somente a Som Livre se rendeu ao sagrado. Sony, além de Marcelo Rossi, reúne hoje vários artistas do meio gospel, em produções próprias e/ou distribuições, dentre os quais se destacam Cassiane, Brenda, Leonardo Gonçalves, Rayssa & Ravel e Shirley Carvalhaes. Muitos de tais artistas evangélicos hoje assediados pelas majors outrora pertenceram a gravadoras segmentadas, como MK Music e Line Records, pequenos selos que demonstraram às grandes multinacionais o caminho para um mercado de grande potencial.

Em entrevista para o Diário de Pernambuco, o Padre Fábio de Melo credita o crescimento nas vendas de álbuns religiosos a um novo momento na sociedade. “As pessoas estão mais carentes e revendo valores. A música provoca essa reflexão. Também acho que estão valorizando mais a qualidade do trabalho. Ninguém compra para fazer caridade. Compra porque está bom e faz bem à pessoa”, profere.

Louvável a união e a fé existentes entre as comunidades religiosas, sobretudo as evangélicas. Também notável a influência exercida por seus líderes sobre seus rebanhos. Em alguns lançamentos da música gospel, nota-se a presença de uma mensagem ou selo na arte do álbum que condena a pirataria, classificando-a também como pecado. Um forte e sensível apelo que muito contribui para o segmento, haja vista o interesse e os números crescentes de álbuns físicos de música religiosa no mercado fonográfico brasileiro.