terça-feira, 20 de dezembro de 2011

Som Sagrado

Por muito tempo à parte do universo popular, a música religiosa sai de seu nicho a partir da década de 90 para hoje ganhar grande espaço na mídia e a atenção das grandes companhias fonográficas.
Padre Fábio de Melo - Foto: divulgação.
No ranking dos CDs mais vendidos de 2009 – divulgado pela ABPD em 2010 – figura em primeiro lugar o álbum “Iluminar”, do Padre Fábio de Melo. O sacerdote reaparece ainda na sexta colocação com o disco “Eu e o Tempo - Ao Vivo”, na oitava com “Vida” e na décima quarta com “Padre Fábio de Melo - Triplo”. Na décima terceira posição figura “Deus do Impossível”, de Aline Barros.

Na relação de DVDs campeões de vendas, Fábio de Melo ocupa a segunda posição com “Eu e o Tempo - Ao Vivo”. Na quarta posição, “Paz Sim, Violência Não – Volume 2” do Padre Marcelo Rossi, que também aparece na nona colocação do ranking com o primeiro volume da mesma série. Na quinta posição, “Creio em Deus do Impossível”, do Padre Reginaldo Manzotti.

Destaque-se que todos os lançamentos em CD e DVD ora descritos possuem produção e/ou distribuição da Som Livre, excetuando-se Padre Marcelo Rossi, da Sony Music. Costumeiramente no ranking da ABPD com trilhas de novelas e demais produções dramatúrgicas, a gravadora das Organizações Globo perdeu seu foco no secular, hoje tendo cast predominantemente religioso, ao qual se agregam ainda Davi Sacer, Diante do Trono, Ludmila Ferber e outros mais. Neste 2011 a Rede Globo preparou o especial “Promessas”, exibido em 18 de dezembro, para reverenciar o gênero, tendo liderado a audiência do horário com média nacional de 13 pontos no IBOPE (Fonte: Gospel Prime).

Não somente a Som Livre se rendeu ao sagrado. Sony, além de Marcelo Rossi, reúne hoje vários artistas do meio gospel, em produções próprias e/ou distribuições, dentre os quais se destacam Cassiane, Brenda, Leonardo Gonçalves, Rayssa & Ravel e Shirley Carvalhaes. Muitos de tais artistas evangélicos hoje assediados pelas majors outrora pertenceram a gravadoras segmentadas, como MK Music e Line Records, pequenos selos que demonstraram às grandes multinacionais o caminho para um mercado de grande potencial.

Em entrevista para o Diário de Pernambuco, o Padre Fábio de Melo credita o crescimento nas vendas de álbuns religiosos a um novo momento na sociedade. “As pessoas estão mais carentes e revendo valores. A música provoca essa reflexão. Também acho que estão valorizando mais a qualidade do trabalho. Ninguém compra para fazer caridade. Compra porque está bom e faz bem à pessoa”, profere.

Louvável a união e a fé existentes entre as comunidades religiosas, sobretudo as evangélicas. Também notável a influência exercida por seus líderes sobre seus rebanhos. Em alguns lançamentos da música gospel, nota-se a presença de uma mensagem ou selo na arte do álbum que condena a pirataria, classificando-a também como pecado. Um forte e sensível apelo que muito contribui para o segmento, haja vista o interesse e os números crescentes de álbuns físicos de música religiosa no mercado fonográfico brasileiro.

quinta-feira, 17 de novembro de 2011

Big Three


Como visto em "O Lado B", "as primeiras fusões na indústria fonográfica mundial se deram entre as décadas de 20 e 40, resultando: EMI, da união entre Columbia europeia, Pathé e Gramophone bretã nos anos de 1928 a 1931; RCA Victor, da junção entre Victor e RCA em 1929; CBS, da associação entre Columbia estadunidense e CBS em 1929; Polydor, da aliança entre Deutsche Grammophon, TeleFunken e Siemens em 1937; Phonogram, da união entre Gramophone francesa e Philips em 1945 (FLICHY, 1982, p. 23). O processo de fusões seguiu pelas décadas seguintes até resultar no que se conhece hoje por majors, multinacionais que movimentam grande parte das cifras da indústria fonográfica mundial como também do entretenimento e das comunicações".

Em 11 de novembro deste ano, nova grande fusão é anunciada. Universal e EMI, agora com forças unidas, cunham novo termo para denominar a fonografia major: big three. O grupo francês Vivendi, do qual a Universal Music é subsidiária, fechou acordo para compra do setor de produção musical das Eletric and Musical Industries por cerca de US$ 1,9 bilhão. Até então administrada pelo Citigroup, a EMI levantava rumores havia tempos no mercado financeiro, o que já sinalizava a possibilidade de algum trâmite envolvendo a gravadora. A inédita negociação envolve ainda a Sony Music, que adquiriu as operações de catálogo da EMI por US$ 2,2 bilhões, desbancando a concorrente Warner, também interessada na operação.

Como registrado em "O Lado B", na opinião do produtor Ruy Quaresma, “elas [as majors] estão se amalgamando tanto que, no final, vai existir apenas uma grande multinacional que, provavelmente, não vai suportar a pirataria, os downloads da internet (...)”. É questão de tempo para vermos mais fusões na fonografia major. Resta saber até quando se poderá contornar sua crise desta maneira.

terça-feira, 20 de setembro de 2011

O Toque de Midas


Em matéria publicada no caderno Ilustrada da Folha de S. Paulo em 06/09/2011, o astro teen Justin Bieber é curiosamente apontado como “O Menino Midas”. Vicent M. de Gradpre, economista da Universidade Columbia, analisou a carreira de Bieber e afirma que "o mercado teen é enorme, e música é só pretexto. Mas tem data de validade. Porque o ídolo logo cresce e vem o próximo." Gradpre também destaca que “a tática é lucrar muito e rápido [...], é hora de aproveitar toda a fama para associar sua cara a tudo o que se move" - ou que mova cifras.




Descoberto através da internet pelo produtor Scooter Braun em meados de 2008, Justin Bieber possui apenas um disco de carreira lançado pela Island Def Jam, selo da Universal Music, somando mais de quatro milhões de cópias vendidas. Seu maior mérito comercial, no entanto, vem de sua extensa e inusitada linha de produtos licenciados em diversos países, desde cadernos e bonecos até roupas e acessórios odontológicos. Uma loja virtual foi criada para comercializá-los em primeira mão. Somente o seu perfume “Someday” somou, durante as três semanas que sucederam seu lançamento, mais de quatro milhões e oitocentas mil unidades vendidas.



Como visto em “O Lado B”, o decadente disco físico começa a ser visto pela indústria fonográfica muito mais como uma peça que, agregada a um mix de marketing, auxilia na difusão da produção artística e da imagem de seus artistas, o que se reverte em  licenciamentos, patrocínios e, por fim, renda. [p. 124].

Fotos: justinbieber.shop.bravadousa.com
Justin Bieber, além de cantar, também dança, toca violão, piano, bateria e trompete. Talento musical à parte, sua imagem é seu grande potencial. O toque de Midas surge de sua associação com bens de consumo impulsivo, tornando dourado não apenas o universo Bieber, mas também o universo pop engendrado pelas companhias do disco. Renovam-se, assim, suas esperanças e perspectivas.

terça-feira, 23 de agosto de 2011

Direitos Sobre Discos




Segundo matéria publicada em 22/08/11 pela Folha de S. Paulo, definição que estabelece a recuperação dos direitos autorais após 35 anos foi agregada à lei americana em 1976. Passando a vigorar a partir de 1978, tal definição começará a ser percebida efetivamente a partir de 2013. Os discos que a este ano completarem 35 anos de lançamento se desvincularão de suas gravadoras de origem, tendo os artistas poder para administrá-los como bem quiserem, bastando entrar com pedido ante à Justiça com dois anos de antecedência. A fonte de renda oriunda de reedições de álbuns, portanto, se vê ameaçada no mercado estadunidense, o que não ocorre aos discos nacionais considerando que a legislação brasileira estabelece que tais direitos, pertencentes às companhias do disco, seguem assegurados por longínquos 70 anos.

Apesar da suposta segurança em relação aos direitos das gravadoras no tocante aos álbuns brasileiros, abalos ainda poderão ser percebidos pelas filiais nacionais das grandes companhias. Segundo a referida matéria, há quem considere esta definição legal como o tiro de misericórdia à fonografia major. Não havendo remédios legais para reverter a cena, veremos, no mínimo, mais um grande abalo na estrutura fonográfica mundial.

quarta-feira, 13 de julho de 2011

Imagem, de Jonas Silva



Integrante do grupo vocal Garotos da Lua, Jonas Silva abandonara seus parceiros na década de 50 para seguir carreira solo. O lugar vago seria ocupado por nada mais nada menos que João Gilberto. Silva assinaria com a Rádio Tupi e gravaria discos para a Mocambo e para a Philips.

Rótulo de um dos LPs do selo Imagem.
Vindo de Pernambuco e radicado no Rio de Janeiro, Jonas Silva havia sido vendedor da Murray, lendária loja de discos e ponto de encontro da juventude carioca durante as décadas de 40 e 50. Nos anos 60, já afastado dos holofotes, Silva continuava a lidar com discos, agora não como cantor ou vendedor, mas como radialista e produtor, realizando edições de álbuns estrangeiros de Jazz para a Philips. A partir de 1969, Jonas Silva desempenharia tal função em seu próprio selo, Imagem, responsável por trazer ao Brasil títulos de notáveis etiquetas norte-americanas e europeias voltadas primordialmente ao Jazz, ainda com pouca representação comercial no Brasil. O filão explorado por Jonas Silva rendeu edições brasileiras de grandes álbuns de artistas como Billie Holiday, Stephane Grapelli, Duke Ellington e Dizzy Gillespie. Na década de 80, Silva reeditaria ainda discos da já extinta etiqueta Mocambo, iniciando flerte com o novo formato que àquela época despontava: o CD. O selo Imagem lançaria ainda produções próprias de artistas do porte de Gilson Peranzzetta, Oscar Castro Neves, Luiz Eça e Victor Assis Brasil. Os últimos lançamentos engendrados por Jonas Silva sob a marca Imagem datam de 1996.

Em 26 de julho de 2008, “O Globo Online” publicava entrevista feita com Silva. Àquela época com 79 anos, dizia-se indiretamente responsável pela invenção da Bossa-Nova, e que “Dick Farney e Lúcio Alves começaram tudo, foram os primeiros cantores modernos brasileiros”.

Ao lado de tantos empreendedores, Jonas Silva é mais um grande e respeitável nome associado à criatividade e à ousadia em nossa fonografia.

Warner Sob Nova Direção




Nascido em 1958 nos EUA, o braço fonográfico da Warner Brothers, companhia até então atuante apenas no ramo da cinematografia, passou por diversas mãos durante sua trajetória: Seven Arts, nos anos 60; Kinney National Company, nos anos 70; Warner Communications, até a década de 90; Time Warner, até 2004.

No ano de 2006, executivos da Warner Music iniciaram negociações com a EMI – Electric and Musical Industries – visando uma eventual fusão, o que acabou por não se concretizar dada a insegurança jurídica constatada pela companhia inglesa. De 2004 até maio deste ano a Warner Music, desvinculada de grupos empresariais, atuava de maneira autônoma até ser adquirida pelas multifacetadas indústrias Access, grupo atuante nas áreas de recursos naturais, produtos químicos, mídia,  telecomunicações e imóveis. Este fenômeno, diga-se, é definido pela escritora e ativista social Naomi Klein como “onda incorporativa”, que se dá quando empresas de diferentes segmentos se fundem, formando grandes conglomerados. Segundo Klein, a expansão da área de atuação das empresas, através da associação com outras companhias das mais variadas, opostas e inusitadas atividades, é a chave para a construção de um casulo de marca [O Lado B, p. 43].

A dívida amargada pela Warner Music, em razão da queda nas vendas de discos, girava em torno de 2 bilhões de Dólares, e fora assumida pelo império Access. O conglomerado não descarta a possibilidade de venda da companhia pela qual gravam artistas como Maria Rita, O Rappa, Red Hot Chili Peppers e Madonna. Diz-se que a Sony Music vem sinalizando algum interesse pela compra da Warner Music, tal como fez e concretizou com a BMG em 2005, passando desde então a figurar como a maior companhia fonográfica do mundo. Resta saber se a imponência do grupo Sony terá condições de salvar a causa major e a si num futuro tão incerto para as companhias do disco.

sexta-feira, 8 de julho de 2011

Patrocínio Colaborativo: Mão na Massa


Na virada dos anos 70 para os 80, o músico e engajado cultural Francisco Mário partia para uma audaciosa empreitada. Resolvera idealizar aquele que seria o seu segundo disco e vendê-lo antes mesmo de começar a gravá-lo. O LP “Revolta dos Palhaços”, concretizado em 1980, trazia em seu encarte as assinaturas dos apoiadores da produção independente [O Lado B, p. 78].

A ousada iniciativa de Francisco Mário ressurge, após três décadas, em continente virtual. As chamadas “plataformas de patrocínio colaborativo” visam, através da internet e suas redes sociais, arrebanhar público interessado por realizações das mais variadas áreas culturais ainda em sua fase embrionária. Através de doações espontâneas de pessoas predominantemente físicas, arrecadam-se os valores necessários para a gestação do projeto. O apoio conquistado estende a paternidade da empreitada a inúmeros patrocinadores, resultando um projeto naturalmente democrático; cultura de massas engendrada e provida pelas próprias massas.

Conheça algumas das principais plataformas de patrocínio colaborativo:

quarta-feira, 15 de junho de 2011

Renasce a Kuarup


A Kuarup foi criada em 1977 no Rio de Janeiro, inicialmente para produzir discos como brindes de empresas. Durante os 31 anos em que atuou, figurou como uma das mais aclamadas gravadoras brasileiras, com cerca de 200 títulos em seu catálogo abrangendo vertentes como: erudito, choro, música nordestina, caipira, sertaneja, samba e instrumental. Em 2005 iniciou um catálogo de DVDs. A empresa foi fundada pelo jornalista Mário de Aratanha e pelo fagotista Airton Barbosa, do Quinteto Villa-Lobos.

Como apontado em "O Lado B", em fins de 2008 a Kuarup decidiu encerrar suas atividades. Em nota divulgada à imprensa, através de seu site oficial, a companhia declarou, em tom melancólico, seus motivos:

Ao longo dos últimos anos, as vendas de produtos físicos sofreram queda vertiginosa, nem de longe compensada pelas vendas por download. Entendemos que a crise do CD é irreversível e tornou inviável nosso modelo de negócio, inteiramente calcado na produção e comercialização de música de qualidade. Agradecemos aos nossos amigos, funcionários, representantes, clientes e fornecedores, e sobretudo aos nossos artistas, que continuarão a carregar a bandeira desta música brasileira que ajudamos a divulgar durante todos estes anos.

Após quase três anos de seu fim anunciado, a gravadora Kuarup está de volta ao cenário fonográfico brasileiro através de inesperada parceria entre Arthur Fitzgibbon e Alcides Ferreira, seus novos proprietários, com a Sony Music. Alvíssara ao público que valoriza a música tangível e de qualidade,  aquela que vem movimentando discretas porém seguras cifras em nossa fonografia. Da feliz empreitada, ressurgem de imediato nove álbuns do acervo da Kuarup. Esperam-se ainda títulos inéditos em prosseguimento ao raro e sofisticado trabalho da companhia que, mesmo sob nova direção, procurará manter sua autenticidade e seu compromisso com a música brasileira.

segunda-feira, 30 de maio de 2011

Clube da Cultura

O Clube da Cultura, segundo seu site, é uma associação sem fins lucrativos formada em 1994 por profissionais do meio cultural.  Tem o objetivo de pensar, debater, promover e contribuir para o desenvolvimento do setor cultural. [...] Os membros do Clube sabem que a natureza própria da cultura – inquieta, plural, representativa e transformadora -, tem que ser respeitada para que esta articulação seja efetiva. Por isso têm concentrado suas ações na criação de projetos estruturantes para o setor, na transmissão de conhecimentos e na criação de oportunidades para que o “nós” seja experimentado coletivamente. Recentemente, a associação publicou suas reflexões acerca do mercado fonográfico, com menção ao livro "O Lado B", conforme link aqui.



sexta-feira, 20 de maio de 2011

Joia Moderna


Notável nome da noite paulistana, o DJ e agitador cultural Zé Pedro define a si próprio como um apaixonado pela música brasileira, especialmente pelas vozes femininas. Produtor de trilhas para desfiles de moda e autor de remixes, sempre faz questão de exaltar cantoras brasileiras em suas apresentações. Com intenção de "iluminar vozes" que adora, Zé Pedro cria o selo Joia Moderna. Em entrevista para a revista Veja em 10/02/11, o DJ afirma que o modelo atual de negócios acaba por deixar de lado inúmeros talentos, e que muitos de nossos artistas estão fora do mercado por não haver quem saiba administrá-los. Em seu site - www.joiamoderna.com.br - Zé Pedro comenta os primeiros títulos de seu selo:

Nessa primeira fornada de lançamentos, a Joia Moderna apresenta três projetos completamente distintos: Zezé Motta no álbum "Negra Melodia", onde ela interpreta a obra de Jards Macalé e Luiz Melodia; a cantora paulista Cida Moreira com um disco de voz e piano chamado "A Dama Indigna" que mistura Tom Waits e Amy Winehouse, passando por Chico Buarque e Caetano Veloso, e um projeto que acontecerá em vários volumes chamado "A Voz da Mulher Na Obra de ...", que terá início com o compositor Taiguara, importante músico e letrista dos anos setenta interpretado por quatorze vozes femininas entre elas Teresa Cristina, Fafá de Belém, Claudette Soares e Luciana Mello.


Mesmo em tempos incertos para a fonografia, sobretudo em suportes físicos, Zé Pedro aposta no mercado seleto de quem valoriza uma produção de qualidade. Esperançoso e confiante, conta que "os discos da Joia Moderna pretendem atingir principalmente os admiradores e colecionadores da boa música brasileira, que ainda acreditam que um álbum é feito de uma capa interessante, um encarte contendo as letras das canções e um roteiro musical com começo, meio e fim". A notável empreitada do DJ visa ser estendida a reedições de discos de cantoras por outras companhias, através de licenciamentos. Os direitos de obscuros LPs de Wanderléa, Vanusa e Leny Andrade já começam a ser negociados por Zé Pedro que, em tom heróico, profere: “toda grande cantora que perder o bonde do mercado pode subir no meu trem.”

quarta-feira, 27 de abril de 2011

RC, Patrimônio Popular


Exposição "RC 50 Anos", 05/2010: "Um Milhão de Amigos"

Uma emoção unificadora toca o público brasileiro há mais de meio século. Apesar das controvérsias – poucas, diga-se, diante de tamanho sucesso –, sentimentos de variados tipos, tamanhos, idades, cores, credos e classes sociais são exaltados pelas composições de Roberto Carlos. Da visceral “Quero que Vá Tudo pro Inferno” à melíflua “Detalhes”, a mesma terna voz barítona e de pequena extensão atravessa até os ouvidos mais resistentes, munidos de filtros, bloqueios psicológicos e preconceitos, tendo como alvo direto o coração.


RC: ouro, platina e diamante.

RC: mais de 100 milhões de cópias vendidas.
Roberto Carlos, em suas cinco décadas de carreira, exaltou a peculiaridade agregadora da indústria cultural, rendeu-se a modismos, criou os seus próprios, vendeu milhões de discos e passou incólume por eventuais erros de percurso sempre com balanço positivo.

 RC: troféus Grammy e Imprensa. 

Em seus 70 anos de vida, recém-completados, emoções viveu e jamais escondeu. Apesar de sua personalidade introspectiva, Roberto não se tolhe em assumir publicamente suas fraquezas e seus dramas pessoais. Desta forma, sua veracidade é exaltada ao mesmo tempo em que aflora seu caráter humano, intensificando a projeção e a identificação de seus seguidores para com sua obra. Ainda que possuindo direitos reservados, na prática o patrimônio artístico de Roberto Carlos é de domínio público. RC é a fiel estampa do povo brasileiro. É patrimônio popular.

Imagens: Igor

quinta-feira, 17 de março de 2011

Discos e Coleções em Bancas

Imagem: Blog Revista Jornalismo
Discos, porcelanas, talheres, brinquedos. Jornais e revistas também. Há muito as bancas deixaram de oferecer meros periódicos. A eficaz distribuição por parte das companhias editoriais logo despertou a atenção dos mais diversos nichos de mercado.

Imagem: Blog Maria Machado
Da possibilidade de associar periodicidade e produto nascem as coleções. No Brasil, a editora Abril, quando associada à Cultural, foi uma das pioneiras a desbravar com grande êxito este segmento. As séries “Grandes Compositores da Música Universal” e “Nova História da Música Popular Brasileira”, comercializadas durantes as décadas de 60 e 70, possuíam fascículos acompanhados de discos de 10 polegadas com seleções de canções. Seguiram-se, pela década de 80, tantas outras coleções, com destaque para as infantis como a “Taba”, também da Abril Cultural, que reuniu de forma criteriosa livros de histórias relevantes de nosso folclore juntos de compactos simples. Provado e atestado, o filão acompanhou a evolução dos suportes audiovisuais durante as duas últimas décadas em séries dos mais variados temas.



Imagem: Ibiubi
Imagem: Mercado Livre
Utilizando bancas de jornais como pontos de venda, o músico Lobão comercializou cem mil cópias do álbum “A Vida é Doce” em 1999, através de seu selo Universo Paralelo. A iniciativa foi embrião da revista Outracoisa, pela L&C Editora, em cuja qual eram encartados CDs inéditos de artistas novos e consagrados, e não meras seleções de sucessos.

São muitas as estratégias do marketing moderno para se agregar valor a um produto. O colecionismo talvez seja uma das mais eficazes. Tal técnica tem sido responsável atualmente pelo resgate do interesse pelos CDs, agora aparecendo nas bancas não em forma de simples coletâneas, mas em suas versões originais e integrais, vendidos a preços bastante acessíveis, acompanhados de encartes ricos em comentários, resenhas e ilustrações. Recentemente, os discos de Chico Buarque e Tim Maia viraram atrações da Abril Coleções, braço do grupo Abril criado para explorar este segmento. Nesta mesma linha, o jornal O Estado de São Paulo recém-lançou sua série “Grande Discoteca Brasileira”, destacando álbuns relevantes de nossa música em reedições igualmente cuidadosas, deleite para apreciadores de música e colecionadores, fiéis mantenedores da fonografia física.

domingo, 27 de fevereiro de 2011

Vale Tudo, Qualquer Coisa

O povo brasileiro é certamente um dos mais criativos do mundo – se não for o mais criativo. No país “Onde a gente não tem pra comer / Mas de fome não morre” [in “Eu Vim da Bahia”, Gilberto Gil], a necessidade e a privação instigam ainda mais os que dominam “a arte de viver da fé” [in “Alagados”, Paralamas do Sucesso].

Tal criatividade, já alcunhada de “jeitinho”, é apontada como cultural, tanto por fazer parte de nossa cultura como também por sê-la. Somos capazes de extrair inspiração até do mais improvável. Na arte, especialmente na música, temos inúmeros mestres em tal técnica.

Foto: Roberto Menescal, site oficial.
Roberto Menescal, autor da melodia de “Bye Bye, Brasil”, letrada por Chico Buarque, declarou ter composto o tema a partir do simples dedilhado de um acorde de violão. Feitas as variações harmônicas, criou uma melodia singular. Para “O Barquinho”, parceria com Ronaldo Bôscoli, Menescal criou uma linha melódica a partir do ruído falho do motor de seu barco.

Foto: Carlos Lyra, site oficial.
Décadas depois de composta, soube-se que “Lobo Bobo” – música de Carlos Lyra com letra de Bôscoli – foi assumidamente copiada da trilha do seriado “O Gordo e o Magro”, tendo apenas seu andamento modificado. Questionado em entrevistas, Lyra ainda se gaba e gargalha orgulhoso por seu feito: “...e nunca ninguém percebeu!”

Influenciado pelo concretismo, Djavan possui obra tão diversa quanto rica, tanto em melodia quanto em letra. O movimento surgiu na década de 50, e fora marcado pela abstração lírica, o que bem se percebe nos versos de “Faltando um Pedaço”, do músico alagoano:

Foto: Djavan, site oficial.
“O amor é como um laço / Um passo pr’uma armadilha / Um lobo correndo em círculos / Pra alimentar a matilha / Comparo sua chegada / Com a fuga de uma ilha / Tanto engorda quanto mata / Feito desgosto de filha [...]”.


Vocalizações e sílabas desconexas entremeiam as canções de Djavan, resultando não em mensagens objetivas, mas em sensações, que se dão através de estímulos quase que subliminares da percepção. Na arte de Djavan, o real significado da palavra é elemento secundário. Tom Zé, em seu recente e alternativo disco “Danç-Êh-Sá”, cravejou melodias sincopadas com versos monossilábicos, exponencializando esta peculiaridade.

Foto: Revista Billboard
Há ainda quem privilegie o balanço em suas criações. Em “O Sapo”, a melodia de João Donato recebeu esmerada letra de Caetano Veloso: “Coro de cor, sombra de som de cor de malmequer [...]”. A versão que perdurou, entretanto, leva os versos do próprio Donato: “Corongondon, corongondon gondon / Querenguenden, querenguenden guenden [...]”. Tim Maia, Jorge Benjor, Bebeto e Seu Jorge são, como Donato, personificações do suingue improvisado, marca de nossa música. De escola bossa-novista, João Donato, ao lado de Marcos Valle e Joyce são alguns dos nomes que, com maior erudição, conseguem incrementar tal balanço com refinadas harmonias.

Foto: tropicalia.com.br
Também adepto da divagação lírico-sonora, Gilberto Gil credita muito da sua inventividade à liberdade dos cantos afro-brasileiros. Caetano Veloso transita de maneira igualmente genial entre versos formais, parnasianos, e o despojamento estilístico de qualquer coisa, como bem refere uma de suas canções.

Desapegado de amarras estéticas, nosso som se mostra tão fluente e espontâneo quanto inspirado. Reflete nossa postura, costumes e, sobretudo, nossa capacidade de receber e assimilar o novo.

terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

O Fim da Música?

Imagem:  viuisso.com.br
Em 27 de fevereiro de 2009, o jornalista, produtor, compositor e agregador cultural Nelson Motta proclamava o fim da música. O texto, publicado no jornal O Estado de São Paulo, está para completar dois anos e continua a repercutir.

Motta, em seu biográfico livro “Noites Tropicais”, narra a relação de alguém que viu a Bossa Nova surgir, a Tropicália ecoar, os festivais ferverem, a era discoteca estourar e o “BRock” barbarizar. Trata-se de alguém que produziu discos de Elis Regina, shows de Gal Costa e engendrou o lançamento de Marisa Monte.

Aqueles nostálgicos anos foram marcados por eventos de massa. A maior parte da produção fonográfica vinha das majors, os jornais e revistas eram parcos, o acesso à mídia era restrito. Possuíamos poucas opções de consumo cultural, e por conta disso encontrávamos com maior facilidade uma similaridade com aqueles à nossa volta. A finada era de massas possuía algum caráter agregador.


A publicitária nova-iorquina Faith Popcorn, em seu best-seller “Relatório Popcorn”, escrito no início da década de 90, apontava uma tendência comportamental cuja qual batizou de “encasulamento”. Segundo a autora, por aqueles próximos anos os indivíduos iriam cada vez mais se voltar a si, ao seu casulo.  Naquele remoto 1991, ano da publicação, a internet ainda estava longe de adentrar nossos lares e nosso cotidiano. A vida era ainda presencial, e não virtual. Éramos mais unidos.

Hoje não temos segmentos, mas hipersegmentos. As tendências e vertentes musicais deram crias. Dado o processo de democratização da técnica, citado por Motta, tais crias se reproduzem de maneira acelerada, e perceber influências torna-se algo dificultoso apesar de algumas vezes termos a nítida impressão de que algo soa familiar.

Imagem: Alfa Ana Mia.
Quanto mais temos facilidade no acesso desta vasta gama de produções culturais, mais o liquidificador gira, ou seja, mais rapidamente as assimilamos e descartamos – com a velocidade de se pressionar a tecla “delete”. Torna-se, portanto, ainda mais difícil algo que não seja dotado de imensa qualidade, erudição, técnica e emoção – dentre inúmeros outros fatores, sobretudo os mercadológicos – perpetuar-se como fez a quadragenária “Roda Viva”, de Chico Buarque ou a quinquagenária “Garota de Ipanema”, de Tom e Vinícius. Constatada esta realidade, poderíamos, como consequência, anunciar o fim da música – como fez Nelson Motta? Talvez pudéssemos entender tal cenário como uma ameaça ou simplesmente uma dificuldade em relação à perpetuação dela, o que seria tanto menos assustador, mas também delicado.

quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

O SMD e a pirataria no contexto da atual fonografia

Adentrando o gabinete do então ministro da cultura Gilberto Gil, bradou: “O pirata está morto!”. Com a convicção de ter solucionado um problema para a indústria do disco, Ralf Richardson da Silva, da dupla Chrystian & Ralf, apresentava em fins de 2003 o protótipo de sua criação, o SMD: Semi Metalic Disc.


O SMD não se trata, no entanto, de novo suporte, mas sim da otimização de um já existente. Considerando que as produções musicais atuais raramente lançam mão de toda a capacidade do Compact Disc, Ralf sugeriu a metalização somente da parte útil da superfície acrílica do disco, de modo a reduzir custos. O conceito de economia se estende também à capa, feita em papelão e sem encarte. As informações técnicas aparecem grafadas no próprio rótulo do disco, que tem seu preço tabelado em R$ 5,00. “Dei o preço do pirata”, afirmou o cantor à época do lançamento do formato, em março de 2005. Em 2007, Ralf firmava contrato de exclusividade com a Microservice para fabricação do SMD e sua versão audiovisual, o SMDV, por 20 anos. A companhia do setor de vídeo games Nintendo sinalizou interesse em lançar seus produtos no suporte de Ralf, cuja patente foi registrada em mais de uma dezena de países.

O SMD e suas variadas possibilidades de metalização. Imagem: Portal SMD.

Convicto de que os históricos números da indústria fonográfica poderiam ser retomados, Ralf estabeleceu patamares altos para premiação sobre vendagens: meio milhão de cópias, disco Master; dois milhões, Master Top; cinco milhões, Master Star. Desde janeiro de 2004, após reforma, o padrão de premiação da ABPD consiste em: disco de ouro, 50 mil cópias; platina, 125 mil; platina duplo, 250 mil; platina triplo, 375 mil; diamante, 500 mil.

Atualmente, a Universal Music têm oferecido algumas de suas produções consagradas em embalagens econômicas – MusicPac – a preços que variam entre R$ 6,00 e R$ 9,00. Consoa a EMI. Outras companhias comercializam seus produtos, excetuando-se lançamentos, a preços igualmente competitivos. Ressalte-se que um CD pirata, que já chegou a custar R$ 5,00 nas ruas centrais de São Paulo, hoje é vendido por R$ 2,00. Mesmo o mercado fonográfico se esforçando em reduzir o preço final do disco físico, como tem feito, dificilmente conseguiria fazer frente à pirataria que, por ser ilícita, sempre leva vantagem pelo fato de estar isenta de tributação.

Enquanto se discute sobre como manter viável a venda de discos físicos, entretanto, a internet e as vias de difusão dela oriundas parecem estar não só formando, como consolidando um novo hábito de se ouvir música, o que é tanto mais difícil de conter ou mudar já que dia após dia, ou download após download, tal prática se vê mais arraigada em nossa cultura. A crise na fonografia, como visto no livro “O Lado B” – a que se recorre por adiante – tem bases comportamentais.


Em entrevista para o Portal SMD, Ralf foi questionado acerca dos suportes virtuais e proferiu palavras tanto mais românticas – de quem estruturou uma carreira no auge da fonografia – que factuais:



Ao meu ver o suporte físico é insubstituível, a musica pode passar pela Internet, mas ela não acontece (concepção da música), primeiro pela Internet, ela vem de um suporte físico (o disco). [...] A evolução tem que te dar o direito de ouvir melhor do que você ouvia no passado, não é mesmo? E a pirataria na Internet já existe e é fato. E os direitos autorais como serão cobrados pelos artistas na Internet? O pirata ainda está aí ganhando, e exterminando todas as grandes gravadoras no mundo com este suporte físico, então, este suporte físico tem que existir só que legalmente e com um preço justo.


Apesar da iniciativa extremamente louvável e empreendedora, nos seus cinco anos de existência o suporte de Ralf não despertou formal interesse por parte das companhias do disco. O SMD tem sido procurado fundamentalmente para ações promocionais e por artistas independentes que, muitas vezes estabelecidos na internet, buscam trazer ao plano físico sua produção. O formato tem obtido bastante êxito, mas para fins diferentes daqueles para os quais se pensava.


Os discos físicos ainda são objetos de interesse de apreciadores de música, e para um novo artista que construiu suas influências através deles, é natural que este queira ter sua produção em formato tangível. O CD ainda movimenta consideráveis cifras, mesmo que de maneira descendente. Mas uma vez que a música se desprende do suporte material para a intangibilidade de diretórios de players de MP3 – que se popularizam até nos celulares e nos aparelhos de som automotivos – acentua-se no disco o status de memorabilia [p. 97].

Algumas empresas criaram lojas virtuais para comercializar arquivos de música digital, numa tentativa de regularizar seu compartilhamento sem ferir os direitos autorais e de propriedade. Tal iniciativa, contudo, não obteve grande êxito no Brasil, haja vista que os mesmos fonogramas ainda podem ser encontrados gratuitamente por uma infinidade de “cibervias” alternativas [p.29].

Pirataria à parte, a realidade é que a música vem se desprendendo de suportes físicos ao mesmo tempo em que é deixada de ser entendida como produto pelos brasileiros. Visionário e com grande conhecimento de causa, o produtor João Marcello Bôscoli, criador do conceito de download patrocinado, acredita que em breve “ninguém mais vai pagar por músicas”. Até mesmo a indústria que move a pirataria física é ameaçada, dada esta tendência que já há algum tempo temos constatado.

quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

Slap, o selo descolado da Som Livre

O venturoso lançamento da trilha sonora da novela “Véu de Noiva” em 1969, resultado da parceria entre a TV Globo e a gravadora Philips, leva a emissora a fundar em 1971 a Som Livre. Pertencente à Sigla, Sistema Globo de Gravações Audiovisuais, a companhia foi criada inicialmente com a única finalidade de comercializar as trilhas sonoras das produções dramatúrgicas da emissora, constituídas, em sua maior parte, por fonogramas licenciados junto a outras gravadoras. A ideia, por sinal, fora importada do México, país de longa tradição em folhetins televisivos, pioneiro no lançamento das trilhas de tais produções.


O primeiro lançamento da Som Livre: SIG 1001.
Imagem: didimocolizemos.wordpress.com
Desde sua criação, os lançamentos da gravadora das Organizações Globo passam a figurar entre as vendas anuais mais expressivas do mercado fonográfico brasileiro. Nomes como Rita Lee, Novos Baianos, MPB4, Emílio Santiago, Cazuza, Elis Regina, Fafá de Belém, Moraes Moreira, Djavan, Fábio Jr. e Francis Hime já passaram pela gravadora, além de Xuxa, sua mais profícua contratação, que hoje integra o cast da Sony Music. Recentemente, a Sigla se desfez de sua editora musical, a Sigem, por questões administrativas. Entretanto, atenta às novas possibilidades comerciais e tendências do mercado fonográfico, em novembro de 2007 cria um novo selo com a proposta de:

"(...) produzir, distribuir e divulgar o CD dos cantores e bandas da maneira tradicional existente, contando ainda com a possibilidade de emplacar as músicas nas compilações e nas trilhas de novela que a Som Livre também produz, além de inovar utilizando bastante as novas mídias – uma fonte de visibilidade, interação com os fãs e vendas cada vez mais legítimas para o mercado".


Com ares de independente, o selo Som Livre Apresenta foi recentemente rebatizado de Slap – feliz coincidência com nome de manobra executada no contrabaixo, também conhecida como Slapping. A marca conta com nomes como Jonas Sá, Marcelo Jeneci, Little Joy, The Parlotones e Maria Gadú, cantora e compositora de interpretação marcante, segura e de postura alternativa, destaque maior, inclusive, que seu próprio selo.

Em entrevista para a Billboard Brasil, Leonardo Ganem, executivo da Som Livre, afirma que a Slap nasceu em momento negro para a indústria fonográfica:

"E [o selo] nasceu um pouco por isso mesmo: o setor só trazia más notícias, era uma queda que não acabava mais. então, resolvemos criar alguma coisa para as pessoas falarem bem. Fomos aos acionistas da TV Globo e lembramos a eles que a emissora tem como missão divulgar cultura brasileira de qualidade."


Diferentemente dos demais websites de companhias fonográficas, o endereço virtual da Slap é hospedado em domínio “.mus.br”. Supõe-se que o tradicional “.com.br” foi evitado a fim de ressaltar a verdadeira intenção do selo, que pretende valorizar mais o lado musical do que o comercial, assim redimindo a voracidade industrial com que a Som Livre conduziu a maior parte de suas produções em 40 anos de notável e intensa existência.

quinta-feira, 13 de janeiro de 2011

Suportes Alternativos

O disco de 78 rotações, o Long Play, o Cassete, o Compact Disc e o DVD são, em ordem cronológica, os continentes mais populares da produção audiovisual. Outros suportes, porém, foram testados e mesmo introduzidos no mercado de varejo na Ásia, Europa e América do Norte. Conheçamos alguns deles:

- Disco de 16 e 2/3 RPM – Higway Hi-Fi

Imagem: audiophilia.com
Desenvolvido em 1956 pelo mesmo criador do LP, Peter Goldmark, o Higway Hi-Fi consistia em um sistema de toca-discos montado sobre base à prova de choques inicialmente para uso em automóveis Chrysler. A companhia CBS-Columbia foi a responsável pelo fabrico dos aparelhos bem como dos discos especiais para o sistema. Com cerca de 550 sulcos por polegada, o dobro do padrão LP, o Higway Hi-Fi usava agulha de 0,25 milímetro para interpretar as vibrações de um disco de 7 polegadas girando a somente 16 e 2/3 RPM, garantindo surpreendentes 45 minutos de gravação em cada uma de suas faces. Em 1960, a RCA fabricou aparelhos similares capazes de reproduzir discos no padrão single, em 45 RPM.

- Cartuchos

Imagem: socalmusicexchange.com
Inicialmente desenvolvidos para uso em emissoras de rádio, os cartuchos magnéticos se popularizaram entre as décadas de 60 e 70 nos Estados Unidos e na Europa após serem formalmente adotados pela indústria fonográfica. George Eash foi o criador do Fidelipac, com duas faixas de áudio, um dos primeiros modelos a lançar mão desta tecnologia. Seguiram-se as versões de quatro e oito faixas com variações de nomenclatura, formatos e canais de áudio, desde monaurais até quadrafônicos: Stereo-Pak, 8-Track, Lear Jet, PlayTape, Quad-8 etc. Todos consistiam, no entanto, numa longa fita magnética disposta em um par de rolos acondicionada em caddy – cápsula plástica retangular. Versões automotivas de aparelhos reprodutores de cartuchos também foram desenvolvidas.

- HIP Pocket Records


Em fins da década de 60 a Americom Coperation desenvolveu o Pocket Record, similar ao single, porém com apenas 4 polegadas e com menor espessura. A companhia Philco foi a responsável por fabricar os tais discos bem como seus aparelhos reprodutores. Os HIP Pocket Records eram vendidos por cinquenta centavos de Dólar em máquinas automáticas e tinham capacidade para cerca de três minutos e meio de gravação. Os últimos discos HIP datam de 1969.


- Capacitance Eletronic Disc – CED

Imagem: cedmagic.com
O sistema CED foi desenvolvido pela RCA em 1964, no qual vídeo e áudio poderiam ser reproduzidos em um televisor através de um disco de 12 polegadas feito em material semelhante ao vinil, com sulcos de alta densidade. Estes eram interpretados por aparelhagem dotada de agulha especial montada sobre braço tangencial. Da capacitância entre as ondulações oriundas dos sulcos, surgiam impulsos elétricos decodificados em áudio e vídeo. Os discos, que giravam entre 400 e 500 RPM possuíam invólucro plástico, um caddy, como um disquete de computador, de modo a evitar danos em sua delicada superfície. SelectaVision foi o nome comercial adotado pela RCA para tal sistema, que foi descontinuado em 1986 dado o seu alto custo ante ao já consolidado VHS. A companhia japonesa JVC desenvolveu na década de 70 sua versão de disco audiovisual eletrônico, o VHD: Video High Density, muito similar ao SelectaVision. Além de filmes e shows, o VHD também foi utilizado como suporte para video games e karaokê. Possuía uma versão voltada somente ao áudio, o AHD. O sistema foi abolido em 1984 sem muito transcender as fronteiras asiáticas.

- Mikro Disk

Imagem: audiorama.com.br
Em fins da década de 70 um comitê japonês se posicionava em relação à adoção de um padrão para disco de áudio digital. Três eram os concorrentes: o Compact Disc, da Philips; o AHD, da JVC e o Mikro Disk, da alemã Telefunken, que sequer foi produzido industrialmente e tampouco foi adotado pela indústria fonográfica. Cite-se, apenas para efeito de registro, que tal suporte trabalhava com discos de 5,3 polegadas envolto por cartucho. Apesar de possuir leitura analógica, por meio de sulcos e agulha, o aparato da Telefunken possuía codificação digital, muito se assemelhando ao sistema CED e, pela forma, ao MD – a ver – e poderia ter ocupado o lugar que é hoje do CD se tivesse sido aceito como padrão pela indústria.

- Mini Disc – MD

Introduzido no mercado pela Sony em 1992, o Mini Disc consiste em disco digital semelhante ao CD, acondicionado em cartucho de 68 x 72 milímetros. Em suas versões graváveis e regraváveis, o MD tem capacidade variável, dependendo da compressão de áudio utilizada. Foi e ainda é utilizado em transmissões de rádio, tendo sido adotado também pela indústria do disco japonesa.

- LD – Videolaser / Laserfilm / Discovision / Laser Disc

Imagem: blamld.com
Da força conjunta entre MCA e Philips, surge em 1978 o Discovision, disco digital de 12 polegadas com tecnologia semelhante a do CD, apta a registrar conteúdo audiovisual. Foi o precursor do DVD e, por consequência, do Blu-Ray. Também ficou conhecido como Laserdisc ou ainda LD. Com tamanho igual ao de um LP e gravação em ambas as faces, foi – até meados da década de 90 – suporte de produções de companhias como Disney, Universal Studios, Paramount, Warner Pictures etc.

Inúmeros outros suportes de áudio e vídeo foram desenvolvidos pelas empresas de tecnologia. Foram poucos, no entanto, que demonstraram viabilidade no mercado de varejo. Além de estabelecer o consenso entre os produtores de conteúdo audiovisual, tais companhias possuem ainda o grande desafio de ter suas criações aceitas pelo público consumidor. Numa era em que o conteúdo audiovisual se vê cada vez mais desprendido de suportes definitivos, torna-se ainda maior este desafio.